AGENDA
as escolhas da Contemporânea

VÁRIAS EXPOSIÇÕES A DESCOBRIR no recém inaugurado MAAT
Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia
O MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia é a nova proposta cultural para a cidade de Lisboa. Um museu que cruza três áreas num espaço de debate, de descoberta, de pensamento crítico e de diálogo internacional. Um projeto inovador que coloca em comunicação um novo edifício, desenhado pelo atelier de arquitetura Amanda Levete Architects, e a Central Tejo, um dos exemplos nacionais de arquitetura industrial da primeira metade do século XX, e um dos polos museológicos mais visitados do país.
O MAAT traduz a ambição de apresentar exposições nacionais e internacionais com o contributo de artistas, arquitetos e pensadores contemporâneos. Refletindo sobre grandes temas e tendências atuais, a programação apresentará ainda diversos olhares curatoriais sobre a Coleção de Arte da Fundação EDP.
A programação do MAAT começou a 30 de junho com a apresentação de quatro exposições em salas renovadas do edifício da Central Tejo. A 5 de outubro, o novo edifício abriu ao público com uma obra de grandes dimensões criada pela artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster especificamente para este espaço.
O MAAT oferecerá um novo impulso cultural e paisagístico à cidade de Lisboa. A diversidade de programas e de espaços tornam-no num importante ponto no roteiro cultural da cidade. Uma proposta pensada para todos os públicos, para todas as idades.
No dia da inauguração, 22 mil pessoas visitaram as exposições patentes no novo edifício e na Central Tejo.
A par das exposições, a abertura ao público foi assinalada com um programa de 12 horas, com mais de 25 eventos, que atraiu ao campus da Fundação EDP um número recorde de mais de 60 mil pessoas.

Vista da entrada do MAAT-Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, Lisboa, 2016. Cortesia MAAT.
Nas sociedades contemporâneas ocidentais a solidão alcançou um paradoxal estatuto de invisibilidade. Tal circunstância parece acentuar-se por força da extensa disseminação das possibilidades de solidão no espaço público, mas também no espaço privado. E, apesar da violência que muitas vezes as acompanha, as representações da solidão são contaminadas amiúde, por um falso e tranquilizador silêncio, que as protege de um olhar atento e inconformado.
A avaliação subjectiva da solidão é um campo operativo que a obra de Augusto Alves da Silva tem vindo a explorar ao longo dos anos. Nesta exposição no MACE, em Elvas, o artista apresenta novos trabalhos em fotografia, juntamente com obras anteriores, que exploram a (in)visibilidade de diversas formas de solidão. Crystal Clear desafia o olhar dos públicos, estabelecendo um campo de propostas em que a subjectividade de cada um é testada sem pudor. Une si jolie famille (1992), Shelter (1999) e a série sem título apresentada em 2001, no Instituto de Medicina Legal do Porto, e mostradas pela primeira vez em simultâneo e na íntegra no MACE, são bem exemplo de uma pesquisa recorrente e, porventura, obsessiva que Augusto Alves da Silva desenvolve sobre a angústia latente nas relações humanas.
Novos trabalhos do artista continuam a explorar temas como a solidão, a ausência ou a violência, e constroem pequenas narrativas socorrendo-se de uma nem sempre verdadeira cronologia temporal. Desta forma, a fotografia é, agora, quase-cinema, e parece ironicamente contaminada pelo simulacro da verdade documental.
Carlos Vargas, curador
Augusto Alves da Silva nasce em 1963, em Lisboa. Atualmente vive e trabalha em Tremez. Com uma Licenciatura em Engenharia Civil (IST), recebeu bolsas de estudo da Fundação Gulbenkian para completar o Bacharelato em Fotografia (London College of Printing) e o Mestrado em Media Studies (Slade School of Fine Arts), ambos em Londres. Apresentou exposições individuais em alguns dos
mais importantes museus nacionais e internacionais, entre os quais se destacam: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia; MUSAC – Museo Arte Contemporáneo de Castilla y León; Museu de Serralves; Museu do Chiado; Fundação Culturgest. O seu trabalho foi finalista dos prémios União Latina (1996 e 1998), Citibank Private Bank Photography (1999) e do BES Photo (2006). As suas obras estão representadas nas coleções da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, Fundação PLMJ, Fundación Foto Colectania, Helga de Alvear, MEIAC – Museo Extremeño y Iberoamericano de Arte Contemporáneo, Museu de Serralves, entre outras.

Augusto Alves da Silva, "Three Red Cars" 2016 .Cortesia do artista e Colecção António Cachola
"Ainda em 2015, Nicole Brenez, com quem tenho trabalhado nos últimos tempos, propôs-me a aceitar um desafio enviando-me um trailer para o filme “Numéro deux" de Jean-Luc Godard, 1975. Com aprovação do próprio Godard, a ideia era aparentemente simples: podia usar para o meu trabalho os quatro minutos cinquenta e seis segundos e vinte frames de filme desde que lhe enviasse uma cópia digital de alta qualidade, realizada a partir do negativo original em 35mm.
Confesso que depois de uma fase eufórica, dada a excecionalidade da oportunidade, se seguiu um tempo de dolorosa obsessão e mesmo medo. Vivi durante estes quase dois anos como que dentro do que nós (eu e a Nicole) chamamos, em tom de brincadeira mas carinhoso, a “God Box”! Depois de inúmeras conversas com Nicole Brenez, que acreditava que eu teria a sensibilidade que se impunha para trabalhar este material, parti de sete questões de um texto da própria, intitulado por “Under Reconstruction “, utilizando-as como um guia para desenvolver uma instalação site-specific para a Solar. Neste texto encontrei sete afirmações que proponho, agora, que sejam entendidas como questões, cada uma delas colocada num dos sete filmes que integram a instalação. Trabalhando a partir da linguagem fragmentada do autor, insisto numa proposta de investigação sobre o cinema, sobre as imagens e sobre as respostas que podemos ainda dar às questões cruciais com as quais a contemporaneidade nos confronta, usando as narrativas visuais num mundo onde a imagem parece ser cada vez mais espetacularmente excessiva.
Assim, a partir de dia 8 de outubro, será apresentada na galeria Solar uma obra original dividida em sete filmes, com precisamente 4'56''20 de duração cada um, duração que origina também o título do projeto: 4.56.20.
Mais uma vez, a partir da insistência de Nicole Brenez e da sua confiança no meu trabalho, acabei por enviar os filmes a Jonathan Rosenbaum, segundo ela alguém muito especial e que compreenderia o que eu teria conseguido fazer com o material que me foi disponibilizado. Superando as minhas expectativas mais positivas, a resposta foi fantástica. Podemos, assim, contar com mais um texto para este pequeno catálogo, o que, sem dúvida, constituirá um elemento de análise bastante enriquecedor."
João Tabarra
