AGENDA 

 

as escolhas da Contemporânea

 

 

 

O construído é para ser vivido. Habitado. Percorrido. Desconstruído. Quando o artista constrói é para alguém receber; viver; habitar; usar; observar; percorrer ou desconstruir. Cabe a este não só receber como oferecer: o seu sentido. Então há sempre duas direcções. O observador e o observado. O vazio e o cheio. Esta dupla direcção é o jogo da construção e desconstrução. Da obra e do seu receptor. Da arte e da vida.

 

Podemos encarar o espaço como algo onde foi criado lugar: disponível e com acesso. Tal como nos disse Martin Heidegger “espaço é, em essência, aquilo para o qual se criou lugar”. Apesar de parecer, e/ou estar, vazio e livre está, também, limitado. Um limite que não impede, mas que permite que algo seja passível de se (re)iniciar e potenciar presença. É esta presença (viva) que colocará o lugar enquanto espaço dotado de identidade; um sítio reconhecido. Um lugar cujo significado é dado por quem o usa; habita; percorre e desconstrói: o individuo.

 

A construção é aqui uma palavra-chave, na medida em que encaramos/entendemos o artista como um construtor. A este nível Fernanda Fragateiro (PISO 0) e Nuno Sousa Vieira (PISO -1) concedem uma especial importância não só aos materiais que utilizam, mas também, se não mais, ao próprio processo construtivo e não meramente criativo. Com frequência, ambos os artistas utilizam (ou usam) nas suas criações elementos arquitectónicos (ou ligados à arquitectura) como paredes, chãos, mesas, cadeiras, portas ou janelas e é, também, com eles que procuram relacionar e implicar o espectador com a sua obra. O carácter construtivo só conhece um lema: criar espaço, apenas uma actividade: preencher.

 

Realça-se assim, o artista que, também, constrói associando-o à prática que, tendencialmente, o artista contemporâneo assume, na medida em que tende a conceber/projectar e a criar obras tridimensionais, deslocando-se ao local e trabalhando in situ, fazendo com que as obras se relacionem, adaptem, insiram, articulem e ajustem a cada espaço, por vezes a qualquer espaço, potenciando uma confrontação e tensão entre o lugar que ocupam – tradicionalmente espaço comum do espectador (o chão) – e o visitante.

 

Miguel Sousa Ribeiro (curador da exposição)

 

Fernanda Fragateiro vive e trabalha em Lisboa, Portugal. Operando no campo tridimensional e desafiando a tensão entre escultura e arquitetura, o trabalho de Fernanda Fragateiro potencializa as relações com cada lugar, somando o espectador em uma situação performativa. Alguns de seus projetos são o resultado de uma colaboração com outros artistas, arquitetos, arquitetos paisagísticos, artistas visuais e performers. Os projetos de Fragateiro são caracterizadas por um grande interesse em repensar e investigar práticas modernistas. Suas intervenções escultóricas e arquitectónicas em espaços inesperados (um mosteiro, um orfanato, casas em ruínas) e alterações subtis de paisagens existentes revelam histórias de construção e transformação.

 

Nuno Sousa Vieira nasceu em Leiria, em 1971. Atualmente, vive e trabalha entre Lisboa e Leiria. Frequentou o Mestrado em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, escola onde agora é Doutorando. Em 2010/2011, realizou três importantes exposições individuais: “Somos nós que mudamos quando tomamos efetivamente conhecimento do outro”, no Pavilhão Branco do Museu da Cidade, em Lisboa, “Don’t underestimate the impact of the workplace”, na Newlyn Art Gallery and The Exchange, no Reino Unido e “Haben Gegenstände ein Gedächtnis?”, na Hans Mayer Gallery, Alemanha. Apresentou também um projecto individual na ARCO, Madrid, com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti.

 

 

 

FERNANDA FRAGATEIRO

NUNO SOUSA VIEIRA
Fazer é construir. Percorrer é desconstruir

> 21.10.16

 

Galeria Sete Arte Contemporânea 

Fernanda Fragateiro,  vista da exposição Fazer é construir. Percorrer é desconstruir. Galeria Sete Arte Contemporânea.Cortesia da artista e Galerias Sete. Fotografia: Nuno Sousa Vieira. 

Nuno Sousa Vieira,  vista da exposição Fazer é construir. Percorrer é desconstruir. Galeria Sete Arte Contemporânea.Cortesia do artista e Galerias Sete. Fotografia: Nuno Sousa Vieira. 

 

Uma cadeira diz-nos para nos sentarmos nela, uma pintura para a olharmos, uma escada para a subirmos. Os objetos determinam o nosso comportamento. Muitas vezes desejamos possui-los para além das nossas necessidades básicas. Alguns objetos simbolizam poder e outros podem ser vistos com um símbolo de impotência.

 

Os objetos de Christodolous Panayiotou são ambíguos. Para a sua primeira exposição em Portugal, o artista desenvolveu uma instalação cuidadosamente coreografada para o espaço Lumiar Cité, na Alta de Lisboa, alargando a exposição para as janelas da varanda do sexto andar de um prédio de habitação que fica no lado oposto da galeria, bem como para o Museu Calouste Gulbenkian, onde uma performance ocasional, sem hora nem data anunciada, acontece para um público acidental, o habitual visitante do museu, que visitando a Galeria de Arte da Idade Média, provavelmente não vai considerar a performance como tal, pois trata-se de uma discreta ativação do fragmento de um manuscrito litúrgico do século XIV que faz parte da coleção e está apresentado numa das vitrinas do museu.

 

A decisão monárquica com valor de lei, “Pragmática contra o Luxo”, decretada durante o século XVIII, torna-se o título da exposição. A lei é muitas vezes interpretada como puritana, contra a decadência constatada por causa de uma riqueza voluptuosa originada na exploração dos territórios ultramarinos colonizados. Mas esta lei também foi promulgada para assegurar os privilégios de uma classe, por reservar a uma certa nobreza o direito de uso dos objetos de luxo, evitando a sua banalização e assim carregando-os de um simbolismo que servia para anunciar o poder de quem os utilizava em exclusivo.

 

Estruturas de poder por detrás de objetos previamente idealizados e “fetichizados” (sendo este último termo de origem portuguesa), incluindo os próprios objetos de arte (aura), constituem os tópicos da exposição aparentemente minimalista no Lumiar Cité: encontramosobjetos apresentados de uma forma bastante detalhada como, entre outros, uma clássica consola de mármore com a sua vaga função e referência a um design interior burguês; uma fotografia “delicada” de um arranjo de flores em estilo japonês; uma peça de joalharia guardada numa pasta Samsonite, conjugada com as instruções do artista para o assistente de galeria criar a visibilidade da peça para o visitante da exposição; uma escultura que evoca um achado arqueológico, que no seu reduzido volume serve perfeitamente para decorar acasa de um colecionador privado (como peça de arqueologia ou de arte contemporânea); uma árvore natural de marmeleiro e cortinas fabricadas a partir dos restos de tecido encomendado pelo Palácio do Arcebispo do Chipre (Nicósia, Chipre) - todos juntos para revelar uma ambiguidade subtil que vem minar a nossa percepção comum.

 

Uma das ligações predominantes entre os objetos é a forma como o artista ativa cada um deles baseando-se na sua atenção sensitiva às histórias não visíveis da sua produção, da sua materialidade e das projeções materialistas em relação ao desejo de os possuir. Minando noções de pureza, como sine qua non para este tipo de projeção, Panayiotou ilumina certos fenómenos de criação de significado. Tudo isto se desdobra de forma subtil no espaço do Lumiar Cité e no anexo da exposição em frente da galeria, ou na sua performanceno Museu Calouste Gulbenkian, a qual, fora do alcance dos visitantes da exposição, pode ainda levantar a questão de que o artista poderá estar a revelar ou a guardar um segredo.

 

Christodoulos Panayiotou (Chipre, 1978) vive e trabalha em Limassol e Paris. Entre os espaços em que aconteceram as suas exposições individuais destacam-se: Pavilhão do Chipre da 56ª Bienal de Veneza; Point Centre for Contemporary Art (Nicósia); Moderna Museet (Estocolmo); Casino Luxembourg; CCA Kitakyushu; Centre dʼArt Contemporain de Brétigny; Museum of Contemporary Art, St. Louis; Museum of Contemporary Art, Leipzig; Kunsthalle Zürich; e Cubitt (Londres), entre outros. O seu trabalho foi incluído em inúmeras exposições colectivas, incluindo: dOCUMENTA 13 (Kassel); 8ª Bienal de Berlim; 7ª Bienal de Liverpool; Centre Pompidou (Paris); Museion (Bolzano); Migros Museum (Zurique); CCA Wattis Institute for Contemporary Arts (São Francisco); Joan Miro Foundation (Barcelona); Witte de With (Roterdão); Bonniers Konsthall (Estocolmo); Philadelphia Museum of Art; Ashkal Alwan Center for Contemporary Arts (Beirute); Artist Space (Nova Iorque); e MoCA Miami.

 

 

 

 

 

 

CHRISTODOULOS PANAYIOTOU

Pragmática contra o Luxo

> 06.11.2016

 

Lumiar Cité

 

Museu Nacional dos Coches, Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/SER/I03324

Ciclo de Cinema Abstrato

> 16.10.2016

 

Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna, Sala Polivalente

 

Este programa introduz o trabalho de artistas e realizadores que instigaram o desenvolvimento experimental da imagem em movimento durante o século XX, com um foco particular em trabalhos que desafiam o potencial rítmico e visual da luz enquanto medium. Das propriedades generativas do aparato à emancipação de narrativas sinestésicas, psicadélicas e simbólicas, este ciclo inclui um vasto grupo de filmes que se estendem dos anos 20 à década de 70, mapeando a era de ouro do cinema experimental feito por artistas. Ao fazê-lo, sublinha o potencial libertador das narrativas abstratas e do experimentalismo tecnológico como cruciais para a construção de novas sensibilidades e subjetividades.

 

Com o visionamento de obras de: Mary Ellen Bute, Harry Smith, Jordan Belson, António Palolo, Tony Conrad, Stan van der Beek, Steina and Woody Vasulka, Henry Michaux and Eric Duvivier, Whitney Brothers, Walter Ruttmann, Viking Eggeling, Hans Richter.

 

Curadoria de Margarida Mendes

 

Programa

 

 

 

 

 

 

 

Chakra por Jordan Belson. © Center for Visual Music

Exposição retrospetiva da obra de António Ole, uma figura tutelar de toda uma geração de artistas contemporâneos angolanos.

 

Com uma carreira internacional, Ole desenvolveu uma obra que vai da escultura à instalação, da pintura e colagem ao desenho, da fotografia ao filme, em diálogo permanente com a cidade, e antes de mais a cidade de Luanda, com a sua arquitetura e os seus habitantes.

 

 

A filmografia de António Ole, uma produção pouco conhecida iniciada no período pós-1974 (pós-independência de Angola como colónia portuguesa) e que se prolongou nas décadas de 1980 e 1990, é uma das apostas fortes da exposição.

 

Luanda, Los Angeles, Lisboa estabelece uma geografia vivencial, percorrendo ou criando pontes entre as cidades determinantes no percurso artístico de António Ole.

 

O artista nasceu em Luanda (Angola) em 1951, onde vive e trabalha atualmente. Com Formação em Cinema no American Film Institute de Los Angeles (1975) e em Cultura Afro-Americana na Universidade da Califórnia – Center for Advance Film Studies (1981-1985), António Ole realizou a sua primeira exposição internacional no Museum of African American Art de Los Angeles, iniciando uma reflexão sobre a escravatura e o colonialismo.

 

A exposição estabelece um forte diálogo com o espaço da galeria, cruzando a instalação, o filme e a pintura através da ideia de trocas e da ideia de contentor.

 

Com exposições em várias instituições internacionais, António Ole participou em 2013 na 55ª Bienal de Veneza, onde volta a estar presente em 2015, no Pavilhão de Angola, lado a lado com outros jovens artistas angolanos. Recebeu diversos prémios em Angola, Portugal e Cuba. A sua obra encontra-se presente em inúmeras coleções públicas em Portugal, Angola, África do Sul, Estados Unidos da América, Alemanha e Cuba.

 

Curadoria: Isabel Carlos e Rita Fabiana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANTÓNIO OLE

Luanda, Los Angeles, Lisboa 

> 09.01.2017

 

Museu Calouste Gulbenkian

 

António Ole, «Sem Título (I)». Luanda, 1998. Fotografia montada em alumínio. 90 × 120 cm. Coleção do artista. Fotografia: António Ole

A Conversa Inacabada: Codificação/Descodificação

> 31.12.2016

 

Museu Coleção Berardo

 

Investigador em Estudos Culturais, Stuart Hall (1932 – 2014) dedicou a sua vida ao estudo dos laços entre cultura, poder, política e história, de forma a articular o seu papel na construção de identidades pessoais e nacionais.

 

Partindo do seu ensaio Codificação e Descodificação no Discurso Televisivo (1973), esta exposição aborda o modo como o sentido é construído, pode ser distorcido e desconectado do seu intuito original para passar a produzir narrativas especificas ou transversais. A exposição inclui instalações em filme e vídeo, materiais recolhidos em arquivos de imagem e áudio, para refletir sobre acontecimentos sociopolíticos recentes e de que forma eles se inscreveram na história. Sugerindo a importância de perspetivas múltiplas e alternativas para a compreensão destes momentos na história, que tantas vezes é moldada por narrativas dominantes. Nesse sentido, as obras reenquadram o passado numa tentativa de propor novas formas de perceção do mundo em que vivemos, desafiando constrangimentos formais ao operar uma abordagem das questões sociais essenciais com que se confronta a cultura contemporânea.

 

Artistas: Terry Adkins, John Akomfrah, Sven Augustijnen, Steve McQueen, Shelagh Keeley, Zineb Sedira.

 

Exposição itinerante organizada por The Power Plant Contemporary Art Gallery, Toronto, em parceria com a Autograph ABP.

 

Curadoria de Gaëtane Verna (Diretora, The Power Plant) e Mark Sealy (Diretora, Autograph ABP).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ineb Sedira, Gardiennes d'images, 2010. Projeção dupla 19 min., Projeção mono-canal 30 min. Vista da instalação no Palais de Tokyo. Fotografia: André Morin


Conversas: Arte portuguesa recente na Coleção de Serralves

> 22.01.2017

 

Museu de Serralves

 

O Museu de Arte Contemporânea de Serralves continua a sua programação dedicada à Coleção de Serralves com "Conversas: Arte portuguesa recente na Coleção de Serralves”. A exposição apresenta obras em diversos meios - pintura, desenho, escultura, fotografia, filme e vídeo - realizadas a partir dos anos 2000, recentemente adquiridas ou prestes a ser incorporadas na Coleção.

 

 

Concebida como uma série de diálogos entre alguns dos mais influentes artistas portugueses desde a geração da década de 1960 até à atualidade, a exposição propõe narrativas baseadas em explorações formais do real, legados do modernismo, noções expandidas de pintura, mundos visionários de paisagens imaginadas e surrealismo especulativo.

 

 

Publicação: A exposição será acompanhada por um catálogo profusamente ilustrado, o quinto volume da série de publicações dedicada ao estudo e divulgação da Coleção de Serralves. O novo livro inclui reproduções das obras incluídas na exposição, textos que as contextualizam e um ensaio dos curadores Suzanne Cotter e Ricardo Nicolau.

 

 

Artistas representados na exposição: Sónia Almeida, Leonor Antunes, Pedro Barateiro, Pedro Cabrita Reis, Alberto Carneiro, André Cepeda, Mauro Cerqueira, Bruno Cidra, Pedro Henriques, José Loureiro, Jorge Molder, Musa paradisiaca, Jorge Queiroz, Diogo Pimentão, Ana Santos, Julião Sarmento, André Sousa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vista da exposição #Conversas: Arte portuguesa recente na Coleção de Serralves.Museu de Serralves. Fotografia: Filipe Braga, © Fundação de Serralves, Porto.




Vista da exposição #Conversas: Arte portuguesa recente na Coleção de Serralves.Museu de Serralves. Fotografia: Filipe Braga, © Fundação de Serralves, Porto.