AGENDA 

 

as escolhas da Contemporânea

 

 

 

Underground Cinemas & Towering Radios reúne um conjunto de obras através das quais Ângela Ferreira (Moçambique, 1958) tem investigado, celebrado e problematizado as utopias descolonizadoras e revolucionárias do período eufórico de construção nacional em Moçambique, entre a independência em 1975 e o início da guerra civil em 1977. Na linha do pensamento de Frantz Fanon, Amílcar Cabral e Samora Machel, Ferreira examina o papel da cultura, nomeadamente do cinema e da rádio, na construção da nação e nas dinâmicas de colaboração internacionalista, em contexto de Guerra Fria e de luta anti-apartheid na África do Sul. Presta homenagem a este momento histórico através de uma prática investigativa e arquivística que recorre à escultura, ao vídeo, ao som, à fotografia, à serigrafia e ao desenho para revelar imagens e sons deste período que permanecem frequentemente esquecidos. As homenagens de Ferreira sob a forma de modelos  e estudos para monumentos, normalmente incluindo várias versões, retêm uma qualidade de incompletude, abertura, mobilidade e desejo – mesmo quando se trata de instalações de grandes dimensões que passaram da experimentação do desenho e da maquete ao acabamento da escultura final. Estes arquivos e cartografias de revolução são monumentos em revolução (incompleta). A utopia moçambicana do período pós-independência, os seus esforços comunitários, internacionalistas e de bases para descolonizar a produção e a distribuição de imagens, e o impacto das suas ondas (de rádio) na luta anti-apartheid regressam dos seus futuros passados para indagar o presente. 

 

Ângela Ferreira (1958, Maputo, Moçambique). Actualmente vive e trabalha em Lisboa. Estudou escultura (1983) na Cape Town University, África do Sul. Desde 2003, é professora assistente na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Em 2007, foi convidada a representar Portugal na Bienal de Veneza, Itália. Também participou na Bienal de Istambul (1999), Turquia; Bienal de São Paulo (2008), Brasil; e Bienal de Bucareste (2010), Roménia. Participou em diversas exposição individuais e colectivas em instituições públicas e privadas por todo o mundo. O seu trabalho está presente em diversas colecções públicas, tais como: CGAC, Santiago de Compostela, Espanha; Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal; Fundação Serralves, Porto, Portugal; Market Gallery Foundation. Joanesburgo, África do Sul; South African National Gallery, Cidade do Cabo, África do Sul; The Johannesburg Art Gallery, Joanesburgo, África do Sul; MEIAC - Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo, Badajoz, Espanha; Museion - Museum of Modern and Contemporary Art, Bolzano, Itália; e The Walther Collection Neu-Ulm/Bulafingen, Alemanha.

 

 

ÂNGELA FERREIRA

Underground Cinemas & Towering Radios

> 23.10.16

 

Galeria Avenida da Índia

Galerias Municipais

 

Ângela Ferreira,  Underground Cinemas & Towering Radios
cortesia da artista e Galerias Municipais. 

 

São traços pacientes e meticulosos mas também podem ser doses generosas de tinta, o que Rui Moreira sobrepõe no papel para revelar desenhos de processos interiores, paisagens imaginárias ou até a vénia a uma reverência – “Telepath III (dedicated to Herberto Helder)”. Entre o lápis e a caneta de gel, o guache ou a tinta originária da Índia, como entre a natureza e a tradição ou entre o realismo e a magia, muito se revela sobre onde vai buscar a inspiração, a escala e a intensidade. Na constelação desta mostra há espaço para “estrelas negras”, uma “sagrada família” e uma “Nossa Senhora do Aborto”. Entre o emaranhado das paisagens (dos terrenos orgânicos à profundeza dos mares ou às gravitações celestes) e a sensação de que se é “gigante perdido numa floresta ardida” (inspirado pela leitura de 2666 de Roberto Bolaño) há laivos de desconforto que acabam invariavelmente em elevação. Um conjunto de dez obras criadas entre 2007 e 2015 de um artista português que tem recebido mais atenção internacional e sobre quem as Galerias Municipais viram agora o foco. E, de Lisboa, a exposição segue para o Centro Internacional das Artes José de Guimarães.

Rui Moreira  (1971, Porto) Vive e trabalha em Lisboa. Estudou na School of the Art

Institute of Chicago e no Ar.Co. O seu suporte de eleição é o papel e as suas criações podem revelar "paisagens interiores", evocar divindades ou definir padrões geométricas. Cada uma das suas obras nasce de um processo de construção meticuloso (fisicamente exigente até, por vezes), com requintes ritualísticos de um exercício de paciência, através do qual o desenho é aperfeiçoado linha após linha. Continua a inspirar-se na sua infância em Trás-os-Montes, nas experiências com os caretos, nas viagens à volta do mundo ou até mesmo em ferramentas de navegação como o Google Earth. Entre os seus pontos cardeais há cineastas como Tarkovsky, Hitchcock, Herzog ou Kubrick, compositores como Bach e Stockhausen, ou a música tradicional indiana, japonesa, portuguesa e árabe. Selecionado por Philippe Starck para o Prix Canson em 2010; tem o seu trabalho representado em várias coleções internacionais, como as do MUDAM (Luxemburgo), da Société Générale (Paris), da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) e da Fundação Luso-Americana (Lisboa). 

 

 

RUI MOREIRA

Pirómanos

> 11.12.16

 

Pavilhão Branco

Galerias Municipais

 

Rui Moreira  Pirómanos. Cortesia do artista e Galerias Municipais. 

A vida está lá fora é uma exposição que tanto sugere uma divagação nostálgica, como uma insurreição contra o simulacro que nos encerra e que nos apela a sair, para fora de nós. Após a invenção da perspetiva como sistema de representação, a figuração deslocou-se para o lugar do espectador— para a forma como o mundo se lhe apresenta e interpela o olhar e os sentidos. Assim o exercício da representação desinteressou-se do real preferindo explorar os mecanismos que o percecionam ou o seu simulacro.  O simulacro, no limite da sua perfeição, fixa uma realidade paralela, que é controlável e por isso preferível ao original. Paradoxalmente, parece garantir também uma espécie de “acesso imediato ao Real”.   

 

A vida está lá fora lança um convite para um percurso no qual categorizamos os simulacros em três temas. Num primeiro momento, num contexto imaginário a que chamámos COMÍCIO, evoca-se o aglomerado social e a utopia de entendimento. A linguagem une a humanidade na igual proporção em que a divide, organiza-a segundo escalões de poder e estratifica-a burocraticamente. Quer como instrumento de controlo remoto quer como miragem de rutura, liberdade e de entendimento, a comunicação está povoada das interferências de uma maldição babélica.

 

Num segundo momento, na zona CINEMATÓGRAFO, artilha-se um mecanismode imersão. A experiência no cinema é, primeiro, física: o silêncio e a escuridão, simultaneamente individual e coletiva. O pulsar do sangue e a intermitência da respiração tornam-se audíveis no escuro. Despertado o cinematógrafo – a cada grão de luz na engrenagem, no ruído, na desfocagem, na dissolução da imagem – ele opera como a memória: de forma anacrónica, em sobreposição, em direto, diferido e em looping.

 

Num terceiro, e último momento,um JARDIM imaginário prefigura a réplica perfeita. Vagamente evocativos de recreio, os jardins e os parques são espaços de interrupção da vida ativa para dar lugar ao lazer e convívio ao ar livre, de forma moderada, controlada e circunscrita por uma vedação. Convocam-se em tom nostálgico as naturezas-mortas, as paisagens ausentes, os taxidermistas e as classificações num território-maqueta estagnado, pantanoso e labiríntico. Tudo termina onde começa: na linha de horizonte, o cordel omnipresente que nos informa das orientações e medições que temos do mundo. Este está num beco e esconde uma mensagem. Aproximamo-nos para ler: A vida está lá fora (título da peça homónima de André Alves).

 

A vida está lá fora é uma exposição concebida pelos alunos da primeira edição da pós-graduação em Curadoria da Arte, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

 

 

 

 

A vida está lá fora

> 16.10.16

 

Galeria Torreão Nascente da Cordoaria Nacional

Galerias Municipais

 

Ricardo Jacinto. Cortesia do artista e Galerias Municipais. 

PEDRO TROPA
Sim Zut

> 11.11.16

 

Galeria Quadrado Azul 

Guglielmo Marconi, na sua velhice, acreditava que os sons do mundo nunca desapareceriam e que continuariam eternamente, em ondas sonoras progressivamente mais silenciosas. O ouvido humano não estaria apto para detectar estas frequências que se perderiam no tempo, mas nunca no espaço.

 

 

"Longe, mais longe,..." A linha horizontal cruza a linha vertical, tocam-se aqui para se distanciarem sempre mais. Assim compreendemos que os olhos nunca poderão ser moldura para a paisagem, ela vai além dos pontos cardeais e repete "longe, mais longe,…" O homem é apenas o eixo, a bússola que tem nas mãos. A antena procura o outro que, junto da sua antena, procura o outro. A paisagem comunica-se a outra paisagem, conta-nos as suas sinuosidades e os sulcos que a revolvem. Inicia-se o ritual que cura a ferida da distância. A antena acciona o movimento a partir da sua aparente imobilidade: desenha os 360º que a rodeiam e segue num movimento de ascensão. Mas esse movimento discónico a dois compassos não esquece a raiz que o mantém preso ao solo, e é a partir dessa raiz que lhe vem a ânsia da transmissão, sempre interrompida, imperfeita porque humana. A voz que se ouve do outro lado tem o nome da contingência e por vezes torna-se agreste, fere como a própria paisagem. Ao vislumbrar o abrigo encontra-se o código da paisagem. Cada elemento é um ruído que se repete, porque também a paisagem é uma orquestra de repetições, como a semente se junta à semente para juntas melhor devorarem a terra. O ruído acontece na afirmação do acontecimento: acontecimento-árvore, acontecimento-pedra, acontecimento-terra. A melodia é atonal e o seu ritmo não nos pertence. O som desenha a paisagem. A paisagem desenha o som. A paisagem-ruído escuta-se com os pés que, sobre a terra, desenham novas linhas e seguem até onde a paisagem diz "eu não termino".

 

Pedro Tropa Santarém, Portugal, 1973. Vive e trabalha em Lisboa. Os trabalhos de Pedro Tropa falam sobretudo de paisagem e estão intimamente ligados à vivência da montanha. A sua origem são experiências em altitude, que incluem os exercícios de caminhada, de escalada, de confronto com a dureza do terreno e com a rarefacção do ar, em lugares como os Himalaias, os Alpes, os Galayos ou o Monte Rosa. Tendo começado o seu percurso, no início dos anos noventa, a criar filmes em vídeo, o artista foi-se concentrando, ao longo do tempo, na fotografia. Mais recentemente, surge também o desenho. A fotografia e o desenho são os meios que têm participado nas suas viagens, e que surgem da necessidade de fixar momentos: um vislumbre de algo entre o nevoeiro e uma alteração meteorológica. Dois tempos coexistem no processo de trabalho de Pedro Tropa. Primeiro, o momento da vivência da montanha, que o artista percebe como uma preparação para o desenho e a fotografia. E o momento do desenho, já no atelier, um processo onde intervém a memória.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Tropa, 2016. Cortesia do artista e Galerias Quadrado Azul

MARIANA CALÓ E

FRANCISCO QUEIMADELA
Habitantes de habitantes

> 17.12.16

 

Kunsthalle Lissabon

"Há noites em que entramos em nós mesmos,

em que vamos visitar os nossos orgãos"

G. Bachelard, "A Terra e os devaneios do repouso"

 

 

A Kunsthalle Lissabon apresenta Habitantes de habitantes, o mais recente projeto da dupla portuense Mariana Caló e Francisco Queimadela, patente de 12 de outubro a 17 de dezembro de 2016.

 

Mariana Caló e Francisco iniciaram a sua colaboração em 2010 com o projeto Gradações de Tempo sobre um Plano, ainda em curso, e que toma a forma de uma série de capítulos não sequenciais no qual têm vindo a desenvolver uma reflexão sobre a noção de Tempo e a sua relação com a subjetividade humana. A prática artística da dupla recorre a vários media e disciplinas, das quais se destacam a imagem em movimento, sob a forma de video e filme, diaporamas, desenho e pintura.

 

Habitantes de habitantes é um projeto em que os artistas articulam um conjunto de ideias, conceitos e metáforas que os têm vindo a acompanhar recentemente:

 

PEDRAS / ÓRGÃOS / DUPLOS E IMAGENS DUPLICES / GRUTA / GALERIA / CASA /GALERIA DENTRO DE GALERIA / HABITAÇÃO / RECETÁCULO / ÍNTIMO / INTERIOR /INTERIORIDADE /JAZIGO / CORPO / HABITAR OUTRO CORPO / REPOUSO / CEMITÉRIO /DESCANSAR POR CIMA DE OUTROS CORPOS E ORGANISMOS / GIGANTE / MINÚSCULO/MOVIMENTOS EM CADEIA / CADEIA ALIMENTAR / CHÃO / SOLO / CICLO / ORGANISMO /TRANSFORMAÇÃO / PRIMÁRIO / SIMPLES / INTERIOR / PARTICULAR / CICLOS DE VIDA EDE MORTE

Mariana Caló (Viana do Castelo, 1984) e Francisco Queimadela (Coimbra, 1985) estudaram Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e trabalham como dupla desde 2010. Uma seleção das suas exposições recentes inclui O Livro da Sede, Museu se Serralves, 2016; Carpe Diem Arte e Pesquisa, 2014; Entrevista Perpétua, Edíficio Axa, Porto, 2013; Chart for the Coming Times, Rowing Projects, Londres, 2012 e Villa Romana, Florença, 2013; Gradations of Time over a Plane, Gasworks, Londres, 2012 e General Public, Berlim 2011; The Springs of the Flood, Altes Finanzamt, Berlim, 2011. Foram bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian em 2012 para a residência internacional de artistas na Gasworks, em Londres. Foram distinguidos com o prémio BES Revelação em 2012, finalistas da 10ª edição do prémio Edp Novos Artistas em 2013 e vencedores do prémio internacional Schermo dell'arte Film Festival em 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mariana Caló e Francisco Queimadela, Habitantes de habitantes, 2016. Cortesia do artista e Kunsthalle Lissabone

Mariana Caló e Francisco Queimadela, Habitantes de habitantes, 2016. Cortesia do artista e Kunsthalle Lissabone